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COSTURANDO À MÃO O APOIO A QUEM CRIA E CUIDA DE GENTE

Mais palavras sobre os fundamentos desse trabalho.

São reflexões, vivências e estudos que tecem esta rede que ora embala, ora provoca a quem habita esta tarefa de receber e conviver com  os bebês e as crianças.

O Primeiro Encontro

A primeira vez que vi a cara do bebê que se fez dentro de mim. O primeiro dia que ela a deixou sob meus cuidados e foi ser pessoa sem anexo. Sua bebê chorou e eu cantei. O primeiro encontro nomeável com a  ambivalência de sentimentos de amar e querer jogar pela janela. O encantamento e a confusão, o amor de contemplar um mamá, um adormecer ao lado dos esgotamentos vários. Não sabia que esse encontro tão lindo continha tanto desencontro! E mais, que o desencontro é ingrediente pro amor-em-ato brotar.

Primeiro eu me encontrei com os bebês e as crianças - os meus e os de outras pessoas nos 10 anos em que atuei como educadora - descobrindo a novidade de sim-serem-pessoas, me encantando com as possibilidades de comunicação em meio ao desencontro, construindo vínculos únicos com cada um. Nesses encontros foi ficando mais claro pra mim, em companhia das minhas colegas, que o nosso papel ali era muito simples e ao mesmo tempo sofisticado: ser um humano em contato com esse outro humano por meio de um cuidado afetivo e engajado, sendo o corpo, a linguagem e a brincadeira as pontes deste encontro singular. 

Confesso que, imersa no mundo dos pequenos, eu me perdi de mim e dos adultos em geral. O reencontro foi duro como quando de criança dei de cara com um muro jogando queimada: uma alegria seguida de um dedo quebrado, muita dor e um tempão de gesso. Quando vejo a mim mesma novamente, e outra, tenho também óculos de enxergar os meu pares adultos. Agora eu sabia - desse saber-sabor - sobre a complexidade de ser a referência de uma nova pessoa. Sobre o concreto das mudanças que vão acontecendo, sobre os impactos nas outras relações que compõem a rede parental, sobre quando cada-coisinha não é inha coisa nenhuma porque no mundo em que estamos somos convidadas a escolher tudo: o que e como vai comer, dormir, desfraldar etc. Sobre o tamanho da mudança concreta no cotidiano e não só sobre quanto tempo esse cuidado ocupa do dia mas principalmente como ele ocupa: totalmente, pois a qualquer momento podem ligar da escola dizendo que está com febre, pois enquanto estou aqui escrevendo penso na vitamina que eu não dei e que quando voltar ao pediatra estarei morrendo de vergonha de ser uma péssima mãe. Eu queria estar fundamentalmente com estas questões e não era mais possível como educadora o tempo todo com os bebês, pois eu queria era estar perto dos pais.

O cuidado como ação

Nascemos dependentes, só existo porque alguém me alimentou, me limpou, me protegeu. E mais, porque alguém um dia se dirigiu a mim como pessoa-em-potencial, falou comigo como se eu compreendesse, porque alguém ofertou algum afeto a mim: uma voz, um toque, uma cantiga, uma brincadeira bruta, um sabor, um rosto que reagia ao meu pré-sorriso, à minha careta ao experimentar um novo sabor ou tentar fazer cocô. A possibilidade de sobrevivência e mais, de humanização e de saúde de quem chega, depende do que ele recebe de outros humanos em contexto de intimidade. É menos sobre se o banho é com o sabonete neutro xyz ou só água e mais sobre a intenção afetiva desse momento, cuja marca do sabonete e a temperatura exata da água podem fazer parte da trama de afeto ou serem tentativas de resposta a outras questões. É que cuidado é sobre corpo. Cuidamos de um corpo a partir do corpo que somos. É o corpo que cuida. Como se vive o ali daquele banho, por exemplo, é o que pode fazer algum tipo de laço, que é um nutriente humano essencial.

 

Nessas situações de cuidado vai estabelecendo o vínculo que é em parte impositivo, ou seja, “o bebê não pode reconhecer explicitamente a necessidade do outro, estabelecendo uma situação de reivindicação que beira a dominação e que não considera o desejo de quem cuida dele.” (KEHDY, 2020 p. 68) Nem sempre eu estou completamente disponível, nem sempre eu quero atender esse corpo que grita, essa demanda que pode estar para além dos limites do meu próprio corpo. Essa é uma das complexidades envolvidas nesse ato de ofertar e de estabelecer vínculo. “Tornar-se pai e mãe é processo complexo que abala o sentimento de ser si mesmo e reativa a vivência inicial de desamparo que experimentamos no começo da vida (…) O cuidado ao bebê exige muito trabalho psíquico para dar conta da dependência radical em que este se encontra e porta uma dimensão enigmática que implica ruptura com certezas prévias.” (KEHDY, 2020 p.67)

 

Essa é a relação fundante da própria ideia de cuidado como ação humana. Ao lançarmos o olhar para o que uma criança precisa dos adultos ao redor é que podemos aprender o que é cuidado também em outras relações e momentos da vida. Um deles é esse cuja palavra parentalidade tenta descrever de forma ampla e diversa. Quem cuida também precisa de cuidado já que se trata de “um estado de plasticidade (...) [que] faz com que as relações de confiança - ter com quem partilhar emoções e reflexões sobre as transformações que a chegada de um filho traz - sejam de grande importância nesse período” (KEHDY, 2020 p. 71). Esse cuidado se faz por meio de práticas de presença reservada ou implicada, um estar sempre ativo e atento mesmo quando em postura de silêncio e observação. “Uma função primordial de quem cuida é a de abrir espaço e dar tempo, ausentando-se. Nessa posição, o cuidador exerce renúncia à própria onipotência (...) [ao] fazer do cuidado um exercício de domínio. O cuidador em presença reservada oferece um espaço vital, desobstruído, não saturado por sua presença e seus fazeres, que possibilita que quem é cuidado encontre sua maneira de ser.” (KEHDY, 2020 p. 74) Muitas vezes o que essa família precisa é de um ambiente de suporte, ou seja, apoio logístico do entorno para que possam se dedicar às tarefas de cuidado. 

 

Outra função importante é testemunhar, ofertar um olhar presente para os processos que estão acontecendo nas camadas mais explícitas e especialmente nas menos visíveis. “Muitas vezes, cuidar é, basicamente, ser capaz de prestar atenção e reconhecer o objeto dos cuidados no que ele tem de próprio e singular, dando disso testemunho e, se possível, levando de volta ao sujeito sua própria imagem.” (KEHDY, 2020 p. 73). Por fim, com delicadeza, algum olhar-outro pode ser bem vindo, no sentido de colocar quem está imerso em contato também com o mundo, com a alteridade, mesmo que isso seja ruidoso.

 

Durante os últimos anos, no costurar das minhas experiências com minha formação e as interlocuções profissionais ao longo do processo, fui elaborando uma série de ações e práticas de apoio a esse momento da vida que condenso em escuta-oferta-escuta. A base do trabalho é a escuta, o testemunho, a singularidade desse outro. A partir desse olhar é que observo emergir em mim uma oferta que pode ser uma pergunta, um olhar externo, um silêncio, um espelhamento… Em alguns momentos pode até mesmo ser uma contribuição, um algo mais palpável que ofereço. É no terceiro momento, na escuta pós-oferta, que sinto o trabalho acontecendo: a partir de algo que eu ofertei vou ouvir novamente as reverberações ou o silêncio que emerge. Assim seguimos tendo a alteridade e o cuidado -  essa complexidade de ações que experimentam cuidar, que apostam que cuida mesmo sem saber se - como chão ético e prático. 

O Acompanhamento Terapêutico como oferta de  cuidado

O Acompanhamento Terapêutico (AT) é uma intervenção clínica em que a/o profissional atua pontualmente no contexto da pessoa acompanhada, em que o espaço terapêutico não acontece fora, apartado do cotidiano, pois é neste que se encontram as situações que serão vivenciadas com companhia. Como vimos anteriormente, as práticas de presença são potentes modos de apoiar quem está envolvida/o numa ação de cuidado, no sentido não de cuidar-por mas de ser ambiente de suporte para que este exerça a função parental. O AT pode ser então um/a profissional que, junto ao entorno familiar e comunitário, exerce de forma específica essa função de presença e suporte, apoiando o bem-estar, o cultivo dos vínculos e, em alguns casos, prevenindo ou identificando precocemente pontos de atenção no processo de desenvolvimento psíquico.

Vivemos um contexto social estruturado ao redor do trabalho produtivo remunerado e de uma família nuclear, ainda que em configurações diversas, cada vez mais apartada de vínculos comunitários. “As mudanças das configurações familiares e nas cidades fez com que as mulheres deixassem de aprender sobre o aleitamento e os cuidados com os bebês em casa com suas mães e parentes, no convívio com a família estendida. (…) a primeira vez de muitas mulheres como protagonistas do cuidado a um bebê se dá por ocasião do nascimento do próprio filho.” (KEHDY, 2020 p. 69) Diante desse amplo isolamento, muitas famílias passam a contar quase que exclusivamente com as orientações de profissionais, muitas vezes repletas de normativas prontas: pode isso não pode aquilo. Soma-se a isso um olhar de “patologização do corpo feminino, que passa a ser considerado incapaz de conceber, gestar, parir, aleitar sem o auxílio de um especialista. Por outro, a expectativa de um saber natural e espontâneo sobre o cuidado dos bebês, que ignora que somos seres culturais e as formas de cuidar são aprendidas e variam em cada laço social”(KEHDY, 2020 p. 70) Algum grau de angústia e confusão são esperados para este momento de tantas transformações, mas o modo como organizamos socialmente os trabalhos de cuidado favorece sofrimentos vários e intensos. “A recém-mãe clama por apoio, muitas vezes em silêncio, pois dado o peso ideológico e moralizante da idealização da maternidade, intensificado pela cultura contemporânea, costuma exigir de si mesma que dê conta de tudo sozinha.” (KEHDY, 2020 p. 72)

 

Nesse contexto a principal função do AT é essa mesma, a de acompanhar, fazer-companhia para este momento tão delicado, companhia essa que pode acontecer a partir de ofertas de cuidado diversas. Estar junto nas primeiras saídas da mãe com o bebê pela cidade, no metrô, num parque. Apoiar um momento de auto-cuidado como um corte de cabelo em que ela precisa não só de alguém que segure o bebê mas de alguém que seja suporte a ela nessa ação de se expor e expor seu bebê a um outro ambiente pela primeira vez. Receber o medo de “não ser capaz” de passar o dia em casa sozinha com seu bebê. Ouvir sobre as dúvidas e inseguranças no contexto de volta ao trabalho, de entrada na creche, de deixar a criança sob os cuidados de outros adultos e o que isso mobiliza da própria experiência infantil desta mãe. Acompanhar a interação da criança num contexto coletivo como um parquinho e apoiar o adulto-cuidador na observação do que acontece dentro de si e entre as crianças. Essas são algumas das infinitas pequeninas intervenções que este trabalho pode ofertar nos contextos em que se faz presente - inclusive virtualmente - tendo o silêncio, as palavras, o caminhar junto, os gestos como forma de aprender-junto sobre o cuidado de si no contexto do cuidar do outro. 

​Aprender com companhia e autonomia

Aprender é um ação e uma habilidade constituinte do humano. De diversas maneiras e em diferentes níveis estamos o tempo todo em ação de aprender especialmente em momentos da vida em que algo novo acontece, como a chegada de uma criança na família, mesmo que esta não seja a primeira: compreender no corpo que cada pessoa é uma, observar e se organizar a partir das novas interações que alguém novo provoca nas outras relações e no ambiente, perceber transformando-se de novo em outra e assim por diante.

 

Uma das potências do  que oferto é a companhia no processo de aprender e de se aprender a partir da agora existência de um filho, uma filha. Em Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire esmiúça a ideia de que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção (...) [apoiando a] produção das condições em que aprender criticamente é possível” (FREIRE, 2002, p.12-13). Sou educadora, essa é minha formação de base, o chão onde piso para caminhar neste trabalho. Isso não significa que irei ensinar a ser pai, mãe, no sentido bancário - via transferência de saberes, regras, fórmulas - mas que me interessa apoiar a construção de condições para esse aprender vivo, autônomo e crítico. 

 

Um dos elementos dessa ação de aprender de que somos feitos é a “curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta (...). Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos.” (FREIRE, 2002, p.15) Compartilho aqui que quando leio e releio esse trecho meus olhos molham por reconhecer esse dispositivo - a curiosidade criadora - neste encontro que me é objeto de tanto interesse e encantamento. Quando olhamos pros nossos bebês que choram nos perguntamos, ora serenas, ora angustiadas: o que ele quer? Elaboramos hipóteses, testamos soluções, encontramos uma resposta que logo em seguida se mostra provisória e seguimos pesquisando. Enquanto isso o tempo, imparável que é, nos impede de pausar a vida para entender e depois agir. Estamos vivendo, alterando o mundo, nos relacionando com os mais novos, ou seja, transformando nosso entorno para além de quaisquer decisões prévias e planejamentos, mesmo que, paralelamente, os façamos. 

 

Outro elemento constituinte do aprender é a experiência, ou seja, “o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”, (BONDÍA, 2002; p. 21). Quando algo que nos acontece pode ser  visto como experiência e quando esta pode ser elaborada, quando algo pode ser dito-sobre, vivenciamos um saber pela experiência. Ora, não seria isso justamente o que nos acontece na chegada de um bebê ou de uma criança? Essa experiência por excelência é algo vivido no território do corpo - em nós e neste outro - e nos mobiliza para viver uma relação cuja base do encontro é o cuidado. O aprendizado deste ecossistema de ações-que-cuidam não parece ser possível de outro modo a não ser pelo fazer. 

 

Todos os dias somos inundados por uma enxurrada de informações e delas decorrem orientações. Somos também impelidos a compartilhar nossos porquês, nossas explicações e opiniões. Deste modo, o excesso de “informação não deixa lugar para a experiência” (BONDÍA, 2002; p. 21), ocupando internamente os espaços do acontecer. Um artigo lido sobre introdução alimentar, por exemplo, pode compor com a experiência do adulto cuidador. Como é a relação com a comida na família de origem? E os significados do comer no contexto daquela teia parental (ex: estou preocupada pois meu bebê precisa comer pois passará a frequentar creche ao mesmo tempo em que não quero retornar ao trabalho)? Quais são os hábitos alimentares dos adultos? E o imaginário do que seria uma “comida de bebê”? Sem um olhar para a vivência singular daquelas pessoas, qualquer orientação vira uma lista cheia de informações porém vazia de sentido.

 

Escutar o sujeito e quem sabe costurar junto algo que participe da tessitura de sentidos possíveis é uma parte importante deste trabalho. Me situo enquanto Acompanhante Terapêutica que tem como chão uma concepção pedagógica para os processos de aprender na vida e da vida: companhia para que cada um, cada uma rascunhe de forma auto-responsável narrativas de si e jeitos de estar no mundo. Por meio do olhar, da presença e da escuta orientadas por essa ética e intencionalidade o par companhia e autonomia pode manifestar sua potência terapêutica e pedagógica.

Bibliografia

ARAÚJO, Fábio. Um passeio esquizo pelo acompanhamento terapêutico: dos especialismos clínicos à política da amizade. Dissertação (Mestrado em Estudos da Subjetividade) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, 2005.

BONDíA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, 2002, n. 19

ENGEL, Daiane; GHAZZI,Mercês; SILVA, Heloisa. Acompanhamento Terapêutico e a Relação Mãe-Bebê. Psicologia: Ciência e Profissão, 2014, 34(4), p. 1045-1058 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2002

KEHDY, Roberta. Redes de apoio: cuidar de pais na chegada de um filho. In:  IACONELLI, Vera; GARRAFA, Thais; TEPERMAN, Daniela (Orgs.) Laço. Belo Horizonte. Autêntica, 2020


YOSHITAKE, Ana Clara Renó Ferreira; FERREIRA, Bruna Galluccio; KAVAKAMA, Juliana Bustamante. Encontros e desencontros entre bebês e professoras na creche. Anais do VII Congresso Paulista de Educação Infantil, 2015, p. 438-454

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